• Gustavo Sette

Lições do Príncipe Harry para herdeiros e sucessores

A trajetória do príncipe Harry tem uma série de erros e acertos que trazem boas lições para sucessores e herdeiros de famílias empresárias e que vivem, em uma escala menor de visibilidade, o mesmo dilema. Sua busca é legítima e admirável, mas os passos para implantação de suas vontades têm decisões desastrosas, que poderiam ser evitadas.




A polêmica entrevista do casal Harry e Markle à emissora CBS, em 07 de março, foi uma jogada infeliz dentro de um plano que até estava indo bem. Não tenho a pretensão de discutir a fundo a entrevista e nem os pontos ali mencionados, pois não sou especialista em Família Real e nem admirador de fofocas. Minha contribuição não está nos detalhes do caso, mas sim em usá-lo como ilustração de algo vivido por muitos herdeiros: o desejo de construir uma história própria, escolhendo o seu caminho.


Vamos começar pelos acertos, ou pelo acerto: Harry decidiu tornar-se uma pessoa única e independente, viver a própria vida e tomar as próprias decisões. É uma luta corajosa, digna e mais do que necessária, pois essa talvez seja a maior necessidade do ser humano: ser ele mesmo.


Essa busca começa na infância e vai até a vida adulta, mas é uma necessidade central em nossas vidas. Todos queremos e devemos buscar a realização de nosso potencial, planejando e escolhendo livremente, e os obstáculos, internos e externos, não são poucos.


Vivemos uma luta em nosso íntimo, entre a parte que quer evoluir e a outra que quer manter-se acomodada, recebendo a pseudoproteção da família em troca da independência. Vale ressaltar aqui a confusão entre intenções e atos de muitos pais: a maioria diz que deseja ver o filho feliz realizando seu potencial e desejos, mas tem a necessidade inconsciente de controle, e agem como se a realização do filho só pudesse acontecer dentro de seus domínios.


O problema de não comprar essa briga e renunciar à busca pelas próprias escolhas é renunciar também à felicidade, pois um dia, a vida cobrará um preço, geralmente em forma de ressentimento, vazio e ira.


Vale lembrar do célebre livro “A Metamorfose”, de Franz Kafka. A obra fala sobre Gregório, um cidadão comum, com uma vida comum, um emprego comum e que não faz nada, não reage a nada, não resiste a nada. Um belo dia, ele falta ao trabalho e sua ausência leva o seu chefe até a sua casa. Chegando lá, o chefe e a família abrem a porta do quarto e percebem que Gregório havia se transformado em uma gigantesca barata. Abriu mão de sua personalidade, valores, autonomia e autodeterminação, o que levou a essa bizarra metamorfose.



Importante ressaltar que sair da família (ou do “sistema”, como Harry disse na entrevista) não é conceitualmente certo nem errado. Harry é melhor do que seu irmão William por ter tomado essa atitude? Não necessariamente. Harry tem que buscar a sua felicidade e William, a dele. Pelo histórico rebelde, pela ligação com a mãe e pelas declarações, Harry, que é o 6º na linha sucessória, não quer viver aquela vida. Se William quer, ótimo para ele.


É louvável, portanto, a decisão de Harry de não virar uma barata e lutar pela sua individualidade, mas aí começam os problemas: o como fazer isso. Não foi fácil para seu antepassado Edward VIII, que tornou-se rei em janeiro de 1936 a abdicou no mesmo ano, pois não queria aquela vida. Foi expulso não só da família, mas do país. Mudou-se para a França e lá viveu com sua esposa americana, que era divorciada, o que não é aceito pela monarquia.


Vou me arriscar a dizer que Harry e sua esposa, Meghan Markle, começaram muito bem ao lançar, no começo do ano passado, a seguinte nota:


“Após muita reflexão, estamos renunciando como membros "sênior" da Família Real e trabalhando para ser financeiramente independentes. Agora planejamos viver entre o Reino Unido e a América do Norte, continuando a honrar nossos deveres com a rainha, a Commonwealth e nossas patronagens”.


Digo que foi um bom começo porque foi diplomático, respeitoso e sincero. Famílias precisam entender que funcionam como sistemas sem exclusões, ou seja, ninguém deixa de ser da família e o ato isolado de qualquer membro influencia o sistema todo. Por mais infernal que seja para Harry a vida dentro daquela família, os laços jamais serão cortados.


Harry havia começado bem ao dizer, continuo sendo da família, da monarquia e respeitarei tais convenções, mas vivendo uma vida em outro país e seguindo as minhas vontades. Perfeito. A vida exige certa tolerância e politicagem. O problema foi a entrevista, falando em racismo, rancores, mágoas, passando recadinhos e causando uma ruptura inexequível. Harry continua sendo filho de Charles e Diana e neto da Rainha. Sua filha, que nascerá no final do ano, será capa de jornais e mais uma figura da família real. Podem ficar 10 anos sem se falar e, ainda assim, o que acontecer a ele no Canadá influenciará a família e vice-versa.



A coragem de Harry é louvável, a execução nem tanto. Entendo a pressão das expectativas da família, dos tabloides, das mágoas e dúvidas em relação à história mal contada da morte da mãe, da presença da esposa de personalidade forte e tudo o mais. Harry lutou contra muita coisa, interna e externa.


Farei aqui uma aposta ao dizer que, daqui a 10 anos, mesmo com as burradas que fez, Harry será muito mais feliz do que se tivesse anestesiado as suas vontades. A execução teve passos desastrosos que causarão arrependimento e consequências, mas também aprendizados e, no balanço geral, ele lutou por suas vontades. Acho também que, quando as águas acalmarem, o pai e a avó de Harry respeitarão sua coragem e farão a reconciliação que se espera de nobres, pais e avós.


Voltando a pessoas como nós, herdeiros “normais” de famílias que têm negócios mas não tem castelos, a trajetória de Harry é um exemplo superlativo de um dilema muito comum: fazer parte de uma família que oferece segurança em troca de um script que não serve às vontades do “protegido”. O que fazer?


Me dedico hoje a ajudar herdeiros e sucessores em jornadas parecidas: encontrar as próprias vontades, explorar as formas de buscá-las, traçar um plano e colocá-lo em prática. Mentoria de pessoas de fora da “teia” familiar foi uma ajuda inestimável para mim e recomendo fortemente para todos que vivenciam esses conflitos.


Não é fácil a vida de um sucessor ou herdeiro em busca de tornar-se uma pessoa própria, de forma que virei um torcedor. Mesmo reconhecendo algumas jogadas desastrosas e não tendo nenhuma simpatia ou predileção por membros da Família Real, torcerei por Harry, talvez enviesado por vivenciar uma história pessoal com algumas semelhanças. Os aprendizados são enormes, as cicatrizes doem mas ensinam e a liberdade compensa.

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