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Herdeiros devem participar do planejamento da sucessão?

Resumo: um empresário que planeja a sua sucessão deve decidir tudo sozinho? Muitos acreditam que sim, afinal, ele é o dono. Para essa questão muito comum, o artigo traz 4 caminhos, sugere o mais adequado e propõe um rápido estudo de caso para facilitar a análise. 


Gustavo Sette. 23/05/2018


“Em seu artigo sobre o “testamento surpresinha”, você coloca que o fundador não deve decidir o futuro sozinho. Não consigo entender essa sua ideia. Se eu sou o dono, não é meu direito, dever e melhor interesse tomar as decisões para o meu negócio? “



Recebi essa pergunta de um empresário de Ribeirão Preto e, antes de responde-la, quero agradecer aos leitores do site pelos 1.313 acessos ao artigo da semana passada, um novo recorde.


Tenho recebido também muitas mensagens com dúvidas, pedidos de ajuda e pessoas querendo trocar experiências, e a questão acima merece um artigo dedicado pois é muito comum a donos de empresas:

Se a empresa é minha, por que preciso dividir a decisão sobre o futuro?


Aprendi faz tempo que a vida é feita de escolhas, e escolhas não têm certo e nem errado, mas sim consequências.


Um líder que vai planejar a sucessão tem, matematicamente, 4 escolhas possíveis:


Escolha 1: quem pode manda, quem tem juízo obedece. O dono decide tudo, os herdeiros seguem ordens.


Escolha 2: o dono decide tudo, mas de uma forma minimamente participativa. Ouve a opinião dos herdeiros, compartilha o que está pensando, mas continua decidindo sozinho.


Escolha 3: o dono decide fazer um processo participativo, em que as decisões são compartilhadas, buscando um caminho em comum.


Escolha 4: o dono delega a autoridade aos herdeiros. Participa, opina, mas os herdeiros decidem.


Cada empresa vive uma situação e um contexto, mas eu diria que para 80% dos casos, eu recomendaria o caminho 3 como o melhor. Em segundo lugar, o caminho 2, depois o caminho 1 e a última opção, o caminho 4.


Quatro motivos para o dono envolver os herdeiros


Primeiro, as decisões sobre sucessão afetarão a vida dos herdeiros, de forma que se eles participarem de algo que mudará a vida deles, a chance de adesão, aceitação e comprometimento com o que for decidido é muito maior.


Segundo, por mais que um fundador deteste essa frase, desculpe, mas o mundo mudou. Algumas coisas no mundo mudaram. Os herdeiros provavelmente não têm as mesmas noções de hierarquia, privação de informações e controle, de forma que, na cabeça deles, com os parâmetros do mundo em que eles foram criados, faz todo o sentido compartilhar.


Terceiro, um pai pode até achar que sabe, mas dificilmente tem a verdadeira noção do que seus herdeiros querem, desejam, sonham para o futuro em termos de trabalho, família, estilo de vida. Se mesmo perguntando é difícil acertar, imagine sem perguntar…


Quarto, o processo de construção de um planejamento de futuro compartilhado com a família, quando bem feito, torna-se uma experiência marcante de construção familiar, de busca de união, empatia e amor, que representa uma enorme prova de grandeza e transcendência como líder, chefe de família e executivo.

A teoria na prática


Criei um estudo de caso bem rápido e sem nada muito atípico, para repercutirmos a questão. Tanto o contexto quanto o desfecho são muito comuns em empresas familiares.

  1. Papai tem uma rede de pizzarias e 3 filhos.

  2. A filha mais velha trabalha no negócio, super qualificada, trabalhadora e acha que a empresa deve partir para o negócio de pizzas congeladas. Defende essa ideia faz tempo, mas o pai não concorda e empurra o assunto com a barriga. A filha está noiva de um alemão que trabalha no Brasil, mas deseja voltar à Europa em alguns anos.

  3. O filho do meio gosta de ganhar bem, ser diretor, mandar e aparecer, mas não entrega resultados satisfatórios. Não gosta da irmã mais velha e preferia não trabalhar com nenhuma das irmãs. O pai o protege, até por ser o único filho homem e para não ter que assumir e enfrentar que o filho tem deficiências.

  4. A filha caçula estudou Economia e fez estágios em empresas de renome, com ótimo desempenho. Tem um potencial enorme, mas gosta mesmo é de fotografia, viajar o mundo fotografando, mesmo que isso renda salários menores. Não quer a carreira corporativa e muito menos trabalhar com os irmãos.

  5. A empresa tem um diretor financeiro de plena confiança, que apesar de bem mais jovem, está com Papai desde a inauguração.

Papai resolve planejar a sucessão de forma impositiva, afinal, é o dono e decide que, após sua morte, cada filho terá um terço do negócio. O diretor financeiro será o presidente e os 3 filhos formarão um conselho. Papai conclui que, como são 3 votos, dificilmente alguma questão terá impasse.


Ao tomar essas decisões, Papai impôs aos seus herdeiros os seguintes impactos:

  1. Trabalhar com irmãos que não querem trabalhar juntos.

  2. Ter um presidente que não foi escolhido por eles.

  3. Usar um sistema de gestão e um modelo decisório (conselho com 3 votos) que não foi decidido, nem “treinado” antes de ser colocado em prática.

  4. A filha mais velha não poderá ir morar na Alemanha caso esse seja o desejo do seu futuro marido.

  5. O projeto de pizzas congeladas não foi aprovado nem reprovado, papai passou a bola para a próxima geração.

  6. A filha caçula vai ter que encarar a carreira corporativa, trabalhando com os irmãos e abrindo mão da desejada carreira de fotógrafa.

  7. O filho do meio, que não desenvolveu as competências para merecer e exercer o papel, ganhou uma cadeira ainda mais importante – ao lado de pessoas com quem ele não queria trabalhar e que não queriam trabalhar com ele.

  8. O diretor financeiro antigo ganhou legitimidade com Papai, mas será presidente reportando aos filhos, sem ter tido um período de teste nesse novo papel.

  9. Os empregados que trabalharam para Papai observarão que uma decisão dessa importância não lhes foi comunicada pelo seu fundador, o que gera um enorme impacto na cultura, na percepção de segurança e transparência da empresa.

Olhando para todas essas consequências na vida de pessoas tão queridas e para um negócio que recebeu a dedicação de uma vida toda, será que vale mesmo a pena decidir tudo sozinho pelo mero fato de ser o dono?


Sempre dá para piorar


Existe uma variação das 4 formas acima que é muito comum e consegue reunir o pior dos mundos: é quando o dono chama os herdeiros para um exercício compartilhado, faz as reuniões, ouve a todos mas, na hora de decidir, dá uma “crachazada” e decide de forma diretiva, seguindo as suas vontades.


Essa é a pior forma pois, ao serem convidados para um processo participativo, os herdeiros colocam muita energia e expectativas no trabalho. De repente são promovidos de um papel de deferência e subordinação à construção de uma parceria para o futuro. Passar por isso e retroagir, ver o resultado desse trabalho ir para o lixo, é um golpe de confiança e expectativas que dificilmente tem conserto.


O tema é apaixonante e difícil de ser esgotado, voltaremos a ele em artigos futuros.


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