Estão preparados para pagar a fatura do “novo normal”?

Desde o início desta triste pandemia, temos assistido a um banquete de lives, textos e manifestações a respeito de um tal “novo normal”, que passam pela crença de que o pós-pandemia trará uma nova forma de viver e de se relacionar.


Particularmente, não gosto do termo e não estou muito certo de que o mundo sairá assim tão melhor, mas o objetivo do meu artigo é alertar para um aspecto chato e pouco falado, mas que me parece muito importante para o público com quem eu trabalho. Se você tem algumas décadas de vida pela frente e detém (ou deterá) algum patrimônio, prepare-se para o lado chato deste “novo normal”: alguém vai ter que pagar esta conta, e nós (sim, eu me encaixo no grupo) receberemos atendimento especial.





Nos próximos anos, podemos ter um aumento cavalar de impostos em todas as esferas, para pessoas e empresas, para renda, doações, herança e patrimônio. Se você conta com aposentadoria, pública ou privada, é possível que ela seja reformada tantas vezes que, quando chegar a sua vez, não sobre muita coisa. E se você mora no Brasil ou em outro país da América Latina, temos riscos institucionais que já aconteceram na região, como confisco de bens, moratórias, inflação galopante e proibição de envio de recursos ao exterior.




Não quero entrar no pântano movediço das opiniões políticas, mas vejo, de forma geral, que a pandemia aguçou o apetite arrecadador dos governos mundo afora. A crise acelerou discussões sobre aumentar todos os tipos de impostos dos ricos, criar fundos para o aquecimento global, para a desigualdade, cobrar impostos adicionais de empresas que se beneficiaram da pandemia, criar uma renda mínima no planeta, uma tributação mínima sobre empresas e por aí vai. Como se não bastasse, tenho visto pessoas e grupos milionários pedindo para os governos aumentarem impostos.


Matéria do Financial Times mostra milionários sugerindo que paguem mais impostos!

Tendo a achar que essas conversas ainda estão tímidas e muito mais virá por aí. Considerando que governos e empresas estão reunindo os maiores especialistas do mundo para arrecadar mais, será que não cabe a nós, contribuintes, investir em algum tipo de planejamento? Dizem que as únicas certezas da vida são a morte e os impostos, e devemos nos preparar para elas. A vacina para o coronavírus é questão de tempo, mas e vacina para os riscos patrimoniais?



Vantagens e desvantagens de ser jovem


O desafio do mundo pós-pandemia é ainda maior se você for jovem. Na semana passada, o Financial Times fez uma série de artigos assinados pelo jornal com o título “a new deal for the young”, alertando que os jovens de hoje serão altamente prejudicados em comparação com as gerações mais velhas: terão que pagar pela despreocupação vigente com o meio-ambiente, pagarão como ninguém pela educação e saúde, não terão a estabilidade e a prosperidade vivida pelos seus pais e avós e, para piorar, são desfavorecidos pelo sistema tributário. O jornal é inglês, mas o conceito me parece universal: os impostos penalizam os mais jovens, afinal, os mais velhos votam mais.


Por outro lado, os jovens de hoje podem se aproveitar de vantagens que nenhuma geração vivenciou. As possibilidades de trabalho remoto, colaborativo, uso de tecnologias que dobram possibilidades rapidamente, acesso a investimentos globais que nunca tivemos, uma troca do conceito de “ter” para o conceito de “usar” as coisas, mais voos e companhias aéreas com preços mais acessíveis, opções muito mais fáceis de moradia, entre outros. Li recentemente que já tem brasileiros empregados por companhias americanas, ganhando em dólar e vivendo no Brasil, e eu mesmo tenho amigos que moram no exterior e trabalham para empresas brasileiras. São possibilidades contemporâneas que merecem ser estudadas, avaliadas e experimentadas.



Partindo para a ação


Quem vive os dias de hoje não tem direito de não se preparar, se planejar e antever cenários. Assim como você faz exames de rotina, vai a médicos e se prepara para o envelhecimento, é preciso assumir uma postura ativa em relação ao próprio patrimônio, o que é uma jornada não só útil, mas interessante e capaz de abrir novas possibilidades.

É preciso conhecer alguns conceitos básicos: o dinheiro entra para nós via renda (direta ou indireta) e ganho de capital, além de doações e herança. Você paga impostos diferentes por ter renda e por ter patrimônio. Dentro de cada possibilidade citada, existem diferentes alíquotas, prazos e regras que mudam constantemente, e quem tem o poder de mudar tem também o poder de cobrar. A assimetria contra nós é gigante.





Outro tema importante é a residência fiscal. Você pode ter bens e renda em qualquer país do mundo, mas pagará impostos na sua residência fiscal, que é o país que você passa mais de 6 meses por ano. O investimento obtido no exterior também seguirá uma série de “dependes”. Aluguel, salário, ações, prestação de serviço, cada coisa dessas pode ou não ser tributada no país de origem e na sua residência fiscal.


Alerto para a questão da residência fiscal por dois motivos: primeiro, as possibilidades que já citei de deslocamento. O segundo motivo é um alerta: quem vive no Brasil e possui algum patrimônio tem a obrigação de ter pelo menos uma parte do dinheiro fora do país, ou pelo menos um caminho já conhecido, um plano de saída caso as coisas se compliquem como já aconteceu em países vizinhos. Criar um plano de migração não significa usá-lo. O que não recomendo é esperar as coisas piorarem para começar a pensar nisso.


Quando falamos especificamente de herdeiros, vejo em muitos casos uma acomodação muito grande, afinal, muitos acreditam que os pais estão cuidando de tudo e sabem o que é melhor. Convido-os a repensar essa acomodação. Um dia, os pais não estarão mais aqui e você terá 15 minutos para aprender um monte de coisas complexas e, provavelmente, sem todas as peças do quebra-cabeça. Além disso, pode ser que os seus pais tenham uma visão sobre patrimônio que você não concorde – ou que eles estejam errados mesmo. Quando eu trabalhei com a minha família, avaliei junto uma série de possibilidades de investimento. Gostei de algumas, outras nem tanto. O importante é você ter condições de avaliar e tomar as suas próprias decisões.


Aposentadoria é outro tema que merece ser estudado – ou, ainda melhor, ignorado. Costumo recomendar a famílias empresárias que nem pensem em previdência pública ou privada. Usem o capital e as competências da família para criar alternativas a um processo muito problemático no mundo inteiro e que dificilmente estará melhor daqui a 30 anos. A pirâmide etária é devastadora para um sistema que, nos melhores dias, já estava quebrado.



Conhece-te a ti mesmo


Tudo isso colocado, você pode me perguntar o que fazer. Se você já tiver lido Nassim Taleb, talvez queira apimentar perguntando, “não me diga o que fazer, mas sim o que você fez”.

Não esperem de mim um “arraste aqui para o meu curso sobre planejamento financeiro e patrimonial” pois não é meu foco e nem a minha especialidade. O que eu posso dizer é que eu tenho um plano, construído com base nos meus sonhos e visões para o futuro e feito com ajuda de diferentes profissionais.


É importante você começar daí – o que você quer, o que você sonha? O que você gostaria que o seu dinheiro e o seu planejamento tributário fizessem por você?


Eu, por exemplo, gosto de investimento em moeda forte, diversificado, simplificado, que não ocupe muito o meu tempo, a um baixo custo e com alta liquidez. Em troca, não faço questão de ter a melhor performance do mercado, me dou bem com a visão de longo prazo e não tenho medo de volatilidade.


Esse sou eu, mas tem muitas visões diferentes sobre o mesmo tema. Esses dias, ouvi um podcast sobre empreendedorismo e um brilhante milionário de startups disse, “não consigo conceber alguém viver sem empreender em tecnologia”. Os malucos por bolsa de valores dizem algo parecido sobre a vida de trader, e por aí vai. Essa é a arte do planejamento: o que você quer, o que você valoriza, o que você sonha?



O grátis nem sempre é o melhor preço


Um entrave a esse tipo de planejamento é a dificuldade que o brasileiro tem, de forma geral, em pagar por ajuda qualificada. É muito tentador buscar a diquinha grátis na Internet, filar uma boia do tributarista com uma opinião free, descobrir a ação que vai dobrar sem estudar nem pagar por isso, mas se tem um dinheiro que eu acho que compensa ser gasto, é com assessoria de boa qualidade para assuntos complexos e ligados ao futuro. Todos esses temas são intricados, voláteis e cheios de “depende”, e a sensação de conversar com um especialista é uma das melhores coisas que você pode fazer com seu dinheiro.


Se a pandemia é um acelerador de tendências, convido que acelerem também nessas competências: tipos de renda, tipos de impostos, residência fiscal, estruturas no exterior. Conhecer e ter condições de criar planos flexíveis e adequados às suas convicções, sonhos e seu apetite para risco.


Planejar não é garantia de que as coisas darão certo e muita gente não planeja nada e se dá bem. A reflexão que eu queria deixar é que ninguém seja pego de surpresa: tudo que estamos vendo no mundo terá que ser pago, a conta vai chegar e não vai ser pequena. Não fazer nada é um caminho, projetar cenários e se preparar é outro. Ambos são incertos, portanto, faça as suas escolhas.


Estudo de caso


Marcelo tem 31 anos e é 3ª geração de uma família empresária de médio porte no Interior de São Paulo. Começou a carreira na empresa da família mas, diante da dificuldade em conversar e entender o futuro que poderia ter em família, saiu e foi buscar uma carreira solo. Hoje trabalha em uma consultoria multinacional, recebe um bom salário e vai se casar com uma brasileira filha de italianos, que tem nacionalidade e ligação com a Itália. O pai e os irmãos de Marcelo trabalham na empresa da família e não há espaço algum para conversar sobre sucessão, futuro e patrimônio, o que lhe causa ansiedade e preocupação.


Decisões


Marcelo entendeu que a família não vai discutir o futuro tão cedo e resolveu não sofrer com isso, usando o mantra “o que não tem jeito está resolvido”. Seguirá sua bem sucedida carreira e focará em manter a harmonia com o pai e irmãos. Se a conversa surgir algum dia, ótimo. Se não surgir, ele terá uma carreira própria consolidada.


Olhando para o mundo pós pandemia, Marcelo fez um plano que lhe dá uma série de alternativas. Solicitará a cidadania italiana quando se casar para ter um passaporte europeu. A família tem negócios e investimentos nos EUA, e ele usará os contatos para abrir uma conta pessoal e começar a investir em dólares naquele país, enviando suas reservas e fazendo aportes mensais.


Assustado com o futuro do Brasil e de que país “seja uma nova Venezuela”, o casal vendeu o apartamento e os carros e enviou todo o recurso para a conta americana. Não há nenhuma intenção de morar nos EUA, o foco é aproveitar a segurança e dinâmica do mercado americano, afinal, quem tem dólares em um banco americano pode viver em qualquer lugar do mundo. Um parecer contratado junto a um especialista possibilitou escolher os melhores investimentos, considerando a tributação de não residentes nos EUA, as regras brasileiras de ganhos obtidos no exterior e o perigoso imposto sucessório americano, além dos impactos tributários na Itália caso ele mude a residência fiscal para lá.

Marcelo tem um plano e tem alternativas. Pode viver no Brasil para sempre, pode mudar-se amanhã para a Itália (ou outro país da União Européia) e parou de sofrer com duas questões que lhe tiravam o sono: a segurança jurídica e patrimonial do Brasil e a falta de abertura da família em discutir o futuro.


Usando serviços de mentoria para sucessores, um parecer de um tributarista e outro parecer de um especialista em imigração, Marcelo saiu do nada ao plano estruturado em 6 meses e investiu cerca de 2 meses do seu bom salário. Paz de espírito e um plano flexível que atende a família pelos próximos 50 anos...


Foi caro ou barato?

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