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Guia do planejamento sucessório (I): entendendo as empresas familiares

Atualizado: 26 de Ago de 2019


Família proprietária da Chiappetta Shoes

Presentes em todos os setores da economia de todos os locais em todos os tempos, as empresas familiares representam a entidade de negócios mais popular e complexa do mundo.

Responsáveis por mais de dois terços do PIB e dos empregos do planeta, estas empresas vivem uma intrincada mistura de família, negócios, dinheiro, herança e legado, criando uma complexidade que exige estudo e dedicação.


Essa rica mistura de emoções com negócios, somada à diversidade de gerações, coloca as empresas familiares em uma dualidade dramática e apaixonante: por um lado, entregam mais resultados do que os seus pares não familiares, em todos os setores, épocas e países; porém, ao mesmo tempo, morrem em escala assustadora no momento inescapável em que sua grandeza é testada: a sucessão.


A partir de hoje, iniciamos uma série que trará ao leitor um guia com as etapas e principais aspectos que devem ser abordados em um planejamento sucessório, com definições teóricas, experiências práticas e uma amostra de nossa metodologia de trabalho, ajudando empresas familiares de médio porte a planejar essa etapa tão importante de sua história.


Abrindo a série, o artigo abaixo tem como objetivo dar ao leitor um entendimento do que são as empresas familiares, qual a relevância delas para a economia mundial e o que as diferencia das demais empresas.


O que é uma empresa familiar?

As empresas familiares passaram a ser estudadas como um tópico específico de administração no final dos anos 1960, dada a observação da quantidade e complexidade de empresas geridas por famílias.


Ao longo dessa trajetória de meio século, várias definições foram cunhadas para empresas familiares, em geral por dois tipos de público: os acadêmicos, que estudam as empresas familiares, e os profissionais, que trabalham nessas empresas ou em torno delas.


Não se chegou a um acordo sobre uma definição mundialmente aceita, mas chegamos perto. Coloquei abaixo uma definição acadêmica, uma prática e a minha favorita, e aos interessados pelo tema, recomendei na bibliografia um trabalho extenso discutindo essa definição.

Uma definição acadêmica:

Empresas familiares são aquelas em que a família controla o negócio através do envolvimento na gestão e na posse da empresa (Family Business Review, 2008).

Uma definição profissional, que dá grande ênfase à continuidade:

Empresa familiar é um negócio governado ou gerenciado com a intenção de moldar ou perseguir a visão do negócio mantida por uma coalizão dominante controlada por membros da mesma família ou por um pequeno número de famílias, de forma sustentável através das gerações da família ou das famílias.

A minha definição favorita:


É a adotada pelo Family Firm Institute, entidade de mais de 30 anos que reúne cerca de 2.000 especialistas em empresas familiares de mais de 80 países:  Empresa familiar é uma empresa em que dois ou mais membros de uma mesma família estão envolvidos na propriedade e gestão de um empreendimento.

Uma boa prática, quando falamos em definição, é usar o termo “família empresária”, pois empresas são muito mais transitórias do que famílias empreendedoras. Nos Estados Unidos, por exemplo, acredita-se que mais de 90% das famílias empresárias controlam mais de uma empresa familiar. Uma família empresária pode vender ou mesmo fechar uma empresa, mas continuar empreendendo junta, em outras frentes.


Motivo de vergonha ou orgulho?


“Nós não somos uma empresa familiar!”


Muitos empresários questionam a definição de empresa familiar com um viés preconceituoso, em tom de negação.


Esse é um preconceito infundado, pois em todo o mundo, empresas familiares são mais admiradas, merecem mais confiança e entregam melhores resultados do que seus pares não familiares, conforme veremos a seguir nas 3 principais vantagens das empresas familiares.


Vantagem 1: empresas familiares são mais respeitadas e confiáveis, em todo o mundo


Uma boa notícia para quem tem um viés de vergonha por ser empresa familiar pode ser encontrada em uma pesquisa global e recente, que não deixa dúvidas: a sociedade prefere e respeita empresas familiares, o que traz a elas uma vantagem competitiva não aproveitada.


A pesquisa Edelman Trust Barometer é editada pelaEdelman, tradicional empresa global de pesquisa e relações públicas, fundada em Chicago em 1952.


O trabalho começa comparando a confiança de povos de diversos países em 4 tipos de instituições: ONGs, empresas, imprensa e governo.


O resultado em geral é preocupante: Em uma escala de 0 a 100, a confiança em ONGs é 53, em empresas é 52, em imprensa é 43 e em governos, 41. Quando a empresa familiar entra na pesquisa, a confiança global salta para 75. Ou seja, a confiança global em empresas é 52, mas em empresas FAMILIARES é 75.


No Brasil, a confiança em empresas é 61 e em familiares, 75. Uma vantagem competitiva de 23%. O gráfico abaixo compara a confiança da sociedade em empresas familiares versus empresas em geral. A vantagem das familiares, globalmente, é de 27%.

A vontade de trabalhar em empresas familiares é 2,6 vezes maior do que a de trabalhar em outras empresas. Mas, talvez o mais surpreendente seja que 66% dos consumidores aceitariam pagar um pouco a mais por um produto ou serviço se SOUBESSEM que vem de uma empresa familiar.


O trabalho deixa claro que essa vantagem competitiva é desperdiçada. No Brasil, apenas 46% das empresas familiares são reconhecidas como tal.


Ainda sobre empregados, uma seção específica da pesquisa compara a satisfação de funcionários de empresas familiares e não familiares, e a diferença é grande em todos os quesitos. No quesito “empregados são tratados com justiça”, a empresa familiar tem 37% de vantagem. Em “me sinto motivado para performar bem”, a vantagem é de 23%.

Outra discrepância entre percepção e realidade está na geração de empregos. Menos de 1/3 das pessoas enxergam empresas familiares como geradoras de empregos, embora elas sejam geradoras de mais da metade dos empregos do mundo.


Para encerrar, a pesquisa mostra que a sociedade se orgulha do fato de que o lucro e benefícios gerados por uma empresa familiar ficarão em seu país.


Como nem tudo são flores, a pesquisa traz uma visão global de que os líderes da próxima geração são menos preparados, menos talentosos, menos comprometidos e, para 63% dos respondentes, irão gerar queda na gestão da empresa. Daí vem a necessidade de se investir no processo sucessório e na formação das próximas gerações.


Vantagem 2: empresas familiares entregam melhores resultados do que suas pares comparáveis


O desempenho das empresas familiares supera consistentemente as demais empresas. Essa é a conclusão do já tradicional estudo “Credit Suisse Family 1000”, que desde 2006 publica um índice comparativo entre empresas familiares e não familiares.


O índice é um fundo teórico formado por 1000 empresas familiares de diversas geografias e tamanhos. O fundo em si não existe, mas o banco acompanha a sua performance há mais de uma década, para fins comparativos e educativos.


Ano após ano, o indicador prova que, em todas as geografias, setores, idades e tamanhos, as empresas familiares superam o desempenho das demais.


Quem tivesse investido 100 dólares nas familiares em 2006 teria, no começo de 2018, cerca de 226 dólares, contra 146 dólares do grupo de controle. Em uma década, portanto, elas superaram em 55% os seus pares “profissionais”.


O gráfico abaixo mostra o desempenho das familiares (linha azul) e das não familiares (linha verde), considerando que 100 é o valor de cada grupo no começo do estudo, em 2006.

Repare que, na devastadora crise global de 2008, as empresas familiares sofreram menos e se recuperaram mais rápido, o que nos convida a explorar a próxima vantagem das empresas familiares.

Vantagem 3 – ter o controle permite às empresas familiares a adoção de estratégias e posturas diferenciadoras


O próprio estudo do Credit Suisse, citado acima, elenca 3 características diferenciadoras das empresas familiares: otimismo, cautela e planejamento de longo prazo.


Otimismo e cautela são usados ao mesmo tempo. O empresário enxerga um futuro otimista, mas nem por isso vai ao banco pegar financiamentos de alto risco. Mais da metade dos donos de empresas familiares prefere usar recursos gerados pela própria empresa.


A visão de longo prazo é fundamental em momentos de recessão, queda de resultados e dificuldades em geral. Sem a doença crônica da “trimestrite”, em que é preciso fazer algo muito rápido para sobreviver ao balanço do trimestre seguinte, as empresas familiares conseguem respirar e esperar.


Para ter esses diferenciais a seu favor, famílias empresárias não abrem mão de manter posição relevante na administração da empresa. A presença da família traz o senso de responsabilidade pelas gerações passadas e futuras.


Além dessas vantagens apresentadas no estudo do Credit Suisse, empresas familiares também têm a seu favor uma maior resiliência para enfrentar tormentas, otimismo, lealdade, uma vigilância mais consistente em relação ao uso de dinheiro e outros recursos, são mais inovadoras, menos burocráticas e mais ágeis. Pessoas que convivem há anos profissionalmente e como parentes costumam ser mais rápidas e flexíveis para negociar e tomar decisões.


A principal vantagem das empresas familiares, mencionada em todos os estudos, livros e palestras que já vi sobre o tema é a visão de longo prazo, o que dá a elas a capacidade de planejar as suas ações e, em momentos de crise, recuar, esperar, sem aquela ansiedade comum às empresas de capital aberto, que divulgam resultados trimestrais e pagam bônus pelos resultados de curto prazo.


Empresas familiares dominam a economia mundial


Já vimos nesse artigo o que é uma empresa familiar e por que elas devem se orgulhar por ser familiar: são mais admiradas e confiadas pela sociedade, entregam melhores resultados e atuam sob princípios que as diferenciam.


Veremos agora alguns dados que mostram a força desse setor em todo o mundo.


As empresas familiares são responsáveis ​​por dois terços de todas as empresas em todo o mundo, gerando de 70 a 90% do PIB global e de 50 a 80% dos empregos do mundo.

85% das start-ups são estabelecidas com dinheiro da família (European Family Businesses, 2012).


Alguns destaques regionais:

  1. Brasil: de acordo com dados do SEBRAE e IBGE, 90% dos empreendimentos do país são familiares, gerando 65% do PIB e 75% dos empregos.

  2. China: 85% das empresas privadas da China são de propriedade familiar.

  3. Estados Unidos: empresas familiares são responsáveis por 64% do PIB, 62% dos empregos e 78% dos novos empregos gerados. 35% das empresas da Fortune 500 (guia anual que lista as 500 maiores empresas americanas) são familiares.

  4. Zona do Euro: empresas familiares europeias representam 60% de todas as empresas e do PIB da Europa.

  5. Índia: empresas familiares respondem por dois terços do PIB da Índia (KPMG, 2013)

  6. Oriente Médio: a maior parte do PIB da região, fora do setor petrolífero, e mais de 80% de seus negócios, são de gestão familiar (PWC, 2012).

O gráfico abaixo, do site do Family Firm Institute, mostra o percentual de empresas privadas com controle familiar, em cada país. De acordo com o gráfico, 70% em Portugal, 80 a 90% nos Estados Unidos, 90% no Brasil e incríveis 95% na Alemanha.

Nem tudo são flores


Se por um lado essas empresas têm diferenciais a seu favor, elas enfrentam também uma série de desafios e ameaças: objetivos conflitantes entre família e empresa, confusão entre os papéis e desejos das pessoas e como trabalhar as fronteiras entre família, empresa e dinheiro.


A vantagem de tantos anos de estudo e de existirem tantas empresas familiares no mundo é que os problemas acabam se repetindo. Cada família empresária é única, é verdade, mas muitos dos desafios que elas enfrentam são comuns. Alguns exemplos:

  1. Fundadores desejam a continuidade do negócio após a sua morte, mas não param para planejar sua sucessão (ou fazem de forma autocrática e/ou não transparente).

  2. Familiares que não são donos e não atuam na empresa entendem que deveriam ser envolvidos, ou pelo menos remunerados pelo negócio. Exercem uma influência que pode ser positiva ou negativa para a família e para a empresa.

  3. A dificuldade em se comunicar e resolver conflitos entre família. Um estoque de conflitos não resolvidos é criado, nutrido e, não raramente, gera um rompimento com consequências potencialmente devastadoras.

  4. As cada vez maiores diferenças entre gerações. Pais foram criados seguindo um código de valores totalmente diferente dos filhos. Somados a isso, vivemos um momento de pais superprotetores e relativa estabilidade econômica. Tudo isso torna mais difícil a transição desses filhos para líderes e executivos.

  5. A complexa relação entre pais e filhos. Em geral, os pais querem tratar os filhos de forma equilibrada, mas não é fácil traduzir esse desejo em decisões sobre quem vai liderar a empresa, quem será acionista e quem receberá outros bens. Por trás disso tudo, a criação de mágoas e o tortuoso caminho do direito societário, quase inevitável quando essas questões não são decididas em tempo.

O número cruel: 30 – 13 – 3


Todas essas questões são responsáveis por um número não muito bonito, mas mundialmente aceito nos estudos sobre empresas familiares: de cada 100 empresas familiares que começam, apenas 30 chegam à 2ª geração, 13 chegam à 3ª geração e 3 seguem em frente.


Empresas familiares possuem uma série de vantagens e diferenciais, mas essa mesma mistura que ajuda em vários pontos atrapalha em outros. Por sorte, são questões conhecidas, estudadas e que, na grande maioria dos casos, têm solução.


Companhias em todo o mundo investem pesado em conhecimento e consultoria sobre questões ligadas a tributos, tecnologia, vendas, recursos humanos, inovação, cultura e outros. Todos são temas importantes, mas talvez nenhum deles, isoladamente, tenha o potencial de literalmente destruir 2 de cada 3 empresas. Empresas familiares e seus integrantes devem investir em resolver os problemas de sua complexa relação antes que esses se tornem incontroláveis.


Hoje, explicamos o que são empresas familiares. No próximo capítulo dessa série, traremos uma definição do que é sucessão, quais os principais dados históricos nos estudos das sucessões e o que há em comum entre os casos de fracasso e sucesso.




O trabalho da Generations Consultoria


Se a empresa familiar tem toda a complexidade descrita acima, o universo das PME (pequenas e médias empresas) tem outra série de especificidades que desafiam os seus executivos.


A Generations surgiu para ajudar as empresas familiares pequenas e médias, com um tipo de serviço adequado à sua realidade.


Nossa missão é ajudar empresas familiares pequenas e médias e manter a harmonia e a riqueza com a família, com uma abordagem pragmática, direto ao ponto e sem expor o cliente às tradicionais armadilhas dos profissionais em consultoria. Não vamos propor um “diagnóstico completo de 6 meses” se isso não for absolutamente relevante para o projeto e desejado pelo cliente.


Para saber mais, agende uma conversa gratuita conosco, que possibilitará que consultor e cliente se conheçam e avaliem se há afinidade e competências necessárias para o desafio que se encontra.

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